Tenho medo daquele homem
Outubro 2, 2007 at 6:32 am | In abuso, alertar crianças, comportamentos, crianças, crianças em perigo, desnorte, diferença, diálogo, educação, família, histórias, pais e educadores, pedofilia, perigos, protecção, sexualidade | Leave a CommentTags: coragem, denúncia, histórias para crianças
Virginie Dumont
J’ai peur du monsieur
Arles, Actes Sud Junior, 1997
TENHO MEDO DAQUELE HOMEM
Prefácio
Penso que todos sentimos “grandes medos” na nossa infância, provocados por adultos cujo comportamento era “diferente”. A maioria das vezes, escondíamos esses medos no mais profundo de nós mesmos, sem sequer ousarmos falar deles, com receio de que troçassem de nós, de que não nos compreendessem, de que nos dissessem: “Pára de inventar histórias!” Ainda bem que começámos, finalmente, a falar.
Tenho medo daquele homem é um livro importante para as crianças, porque mostra que podem confiar nos adultos, que estes compreendem os seus medos e as apoiam. O intuito desta obra é, pois, ajudar as crianças a exprimirem os seus medos e as suas angústias, e ensinar os adultos a responder às questões mais delicadas. Este diálogo entre pais e filhos sobre assuntos “incómodos” é essencial para a educação e desenvolvimento das nossas crianças.
Nathalie Baye
Capítulo 1
Sofia vem sozinha da escola
Sofia tem oito anos. É uma menina muito alegre, que gosta de se divertir com as amigas e de trocar mimos com os pais. Como todas as crianças da sua idade, anda na escola. Este ano, começou a vir sozinha para casa, às quatro e meia da tarde. Há já algum tempo que queria fazê-lo, mas só agora é que os pais concordaram. Sofia sente-se orgulhosa de poder fazer o mesmo que os mais velhos!
Sobretudo porque não corre riscos, já que fez este trajecto pelo menos umas trezentas vezes: ora com a mãe, ora com o pai, ora com a irmã mais velha. Sabe que ruas deve atravessar e que deve andar longe da berma do passeio. Assim, pode ficar a falar com as amigas à saída das aulas, antes de ir cada uma para sua casa. Também pode ajudar pessoas que estejam perdidas.
— Sabes onde há uma farmácia, filha?
— Não, só conheço padarias.
E pode ajudar idosos a transportar sacos pesados.
— Que menina amorosa!
Quando chega a casa, fica sempre contente por ter algum tempo para si. Conta o que aconteceu ao pai ou à mãe, quando estes estão em casa, ou fala com a irmã mais velha. Se não estiver ninguém em casa, sabe que deve telefonar à mãe.
— Sou eu, já cheguei. O dia correu bem. Vens tarde, mamã?
— Não te aflijas, chegamos para jantar.
Sofia não se aflige, pelo menos não tanto quanto a mãe, que quer sempre saber se ela chegou bem. Mas a verdade é que Sofia não gosta de estar sozinha em casa. Um dia, telefonou mais tarde, porque tinha ido acompanhar a amiga Maria a casa desta, e toda a família ficou preocupada. A mãe telefonou ao pai, que telefonou aos avós, e o telefone não parava de tocar!
— O que aconteceu? Perdeste-te?
— Não, fui só acompanhar a Maria. Não é grave.
— É, pois. Estávamos preocupados. As ruas não são seguras!
Sofia não percebeu o porquê da reacção da família. Se estava com a Maria, não havia razão para se preocuparem.
— A Maria mora a uns minutos daqui. Nem sequer tenho de atravessar ruas. Já sou grande!
— De acordo, mas tens de nos avisar.
Desde esse episódio que Sofia nunca mais se esquece de telefonar logo que chega a casa, para não afligir a família.
Blog em WordPress.com. | Theme: Pool by Borja Fernandez.
Entries and comments feeds.