Violeta
Novembro 5, 2007 at 8:46 am | In amor, comportamentos, crianças, diferença, diálogo, educação, família, histórias, pais e educadores | Leave a CommentTags: histórias para crianças, respeito, ternura
Violeta
Aqueles dois nem sequer reparam que Klaus abriu a porta da sala.
Então é aqui que está a Nicki, escondida atrás das costas altas e verdes e dos braços compridos e verdes!
— O namorado da nossa filha tem uns braços de aranha! — costuma dizer o papá. E também diz:
— Há três meses que traz vestida a mesmíssima camisola verde! Se calhar só a tira quando cair por ela.
— Deixa a Nicki em paz — a mãe tenta acalmá-lo. — Tu não percebes! A Niki está apaixonada. O Bruno não tem de agradar-te a ti.
— Agradar!?! Deixa-me rir. Até fico cheio de comichão de cada vez que o vejo. Alto como a Torre Eiffel e magro como um esparguete! E é de uma coisa assim que a minha filha gosta? De um Bruuuno!!
“Será que o papá iria gostar mais da Violeta?” — pensa Klaus, à porta da sala. Ele não se atreve a entrar e ir à prateleira buscar o livro sobre aviões, pelo menos enquanto os dois estiverem enrolados um no outro. Verde-aranha com pintas cor-de-laranja. As pintas cor-de-laranja são da t-shirt da Nicki.
Porque é que Klaus tem que pensar agora mesmo na Violeta? E porque é que fica com o coração aos pulos? Aquilo ali, no sofá, à frente dele, não tem nada a ver com ele e com Violeta. Ou será que tem? Klaus ainda não beijou Violeta. Beijou, sim. Uma vez num jogo. Como multa, Klaus tinha de dar três beijos na cara de alguém. Claro que não foi escolher o Pedro ou o Martin e muito menos a gorda da Helga. Foi Violeta quem recebeu os três beijinhos minúsculos. E logo de seguida ficaram os dois vermelhos que nem tomates.
Toda a gente se riu!
— O Klaus está apaixonado pela Violeta! — gritaram.
Que se riam!
Estar apaixonado não tem graça nenhuma. É bonito, mas não é engraçado, pensa Klaus, porque a Violeta se ofende muito depressa. E quando ela olha para ele só de relance, durante as aulas e depois no intervalo também… até dói! De cada vez que ele olha para Violeta e ela desvia o olhar, Klaus sente uma pontada lá no fundo. Mas agora há já algum tempo que andam os dois de bem um com o outro e Klaus tenta não fazer nenhuma asneira que possa zangar Violeta.
Klaus queria ir buscar o livro. Nicki e Bruno ainda não repararam nele. Estão abraçados um ao outro e baloiçam-se levemente de um lado para o outro como se se tentassem adormecer mutuamente.
Têm os olhos fechados. Estão em silêncio.
“Se calhar”, pensa Klaus, “quando se está mesmo apaixonado não se deve falar. O não falar significa precisamente gosto de ti.
Agora Nicki abre os olhos mas só vê o seu Bruno. Não vê o Klaus à porta.
A irmã e o namorado olham-se nos olhos em silêncio. Continuam a não falar.
“Hmm”, pensa Klaus, “eu e a Violeta também fazemos isso. Por acaso, este até é o nosso jogo. Olhamo-nos nos olhos muito tempo e tentamos adivinhar a cor dos olhos do outro porque ela muda ligeiramente todos os dias. Se há sol, se chove, se está claro ou escuro. Se é de manhã, ao meio-dia ou à tarde.”
Violeta acha que Klaus tem os olhos castanhos. Cor de café com leite. Klaus diz que tem olhos pretos. Como café sem leite.
— E os teus são azuis — diz depois Klaus. — Como a minha caneta.
— Não! Isso não é bonito! — Violeta não quer. Faz uma cara de ofendida e fulmina Klaus com o olhar. — Diz uma coisa mais bonita! Imediatamente!
— Azul como o lago de Constança — Klaus já lá tomou banho.
Violeta fica satisfeita com o lago, mesmo não o conhecendo. O azul de um lago é bonito.
— Mas estes dois estão a demorar! — suspira Klaus, apoiando-se na outra perna.
Então, quando se está apaixonado, é assim… Agarramo-nos bem. Balançamo-nos de um lado para o outro. Fechamos os olhos por muito tempo. E depois abre-se os olhos muito tempo mas não se pode olhar para mais lado nenhum a não ser para a pessoa que está à frente. A mão esquerda de Bruno percorre suavemente a mão direita da Nicki, sobe pelo braço e volta a descer devagar.
Também durante muito tempo.
A Violeta já ia achar aquilo estúpido.
E Klaus, para falar a verdade, também.
Já não aguenta muito mais tempo no traço da porta.
Klaus não gosta de ficar a ver namorados.
Envergonha-se um bocadinho mas não sabe bem porquê. Está um bocadinho agitado mas não sabe muito bem porquê.
Vira as costas aos dois mas choca contra a porta. Bum!
— Olha lá, miúdo, por acaso andas a espionar-nos!?! — A voz arranhada de Bruno.
— Há quanto tempo estás aí? — pergunta Nicki, sentindo-se apanhada.
Klaus encolhe os ombros. Será que deve dizer: “Há uma eternidade”?
— Já posso ir buscar o meu livro?
— Pensei que o teu irmão não estivesse cá hoje! — Bruno levanta-se. — Da próxima vez que pensares que ele não está em casa, no teu lugar, eu ia ver primeiro se ele, por acaso, não estará metido nalguma gaveta. — A voz de Bruno soa bastante desagradável.
Nicki também se levanta e segura o namorado pelo braço mas Bruno solta-se.
— Não me sinto bem aqui! — diz — “Tchau”!
E vai embora. Nem se torna a virar para a Nicki.
Já não a olha mais nos olhos.
Nem muito, nem pouco. Absolutamente nada.
Com a Violeta é muito mais bonito. Eles acenam sempre com a mão um ao outro quando vão para casa, depois da escola, e se separam na paragem do eléctrico. Pelo, menos nos dias em que Violeta não tenta olhar de relance para Klaus.
Depois Violeta sorri. Um sorriso muito amoroso e Klaus consegue ver-lhe os olhos, mesmo que já esteja muito escuro. Brilham, azuis como o lago de Constança. Continuam a brilhar mesmo quando Klaus já está do outro lado da rua e ele até consegue sentir-lhes ainda o brilho muito depois de ter dobrado a esquina.
Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
Tradução e adaptação
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