As cadeias e escravidões do mundo livre

Maio 12, 2008 at 8:37 am | In amor, comportamentos, sexualidade, sociedade | Leave a Comment

 Enrique Rojas
O Homem light
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994
(excerto adaptado)

  • Definição do amor humano
  • A relação sexual sem amor
  • Sexualidade vazia e sem rumo
  • As três caras do acto sexual
  • As cadeias e escravidões do mundo livre
  • SEXUALIDADE LIGHT

    As cadeias e escravidões do mundo livre

    Quase todos os movimentos vanguardistas perseguiram arduamente a paixão frenética como novidade. Agora estamos na pós-modernidade. Há uma trajectória-chave na história do pensamento e é a que vai desde a Revolução Francesa (1789) até ao enciclopedismo, donde surgiu a crença no progresso indefinido.

    Todos os ismos artísticos estiveram unidos a processos políticos decisivos: desde o fascismo ao comunismo revolucionário; desde o surrealismo preconizado por André Breton e inspirado de algum modo por Freud, ao marxismo como teoria de luta de classes; desde o existencialismo com toda a sua força, à pintura abstracta que vai desde Vasilii Kandinsky e Paul Klee até Jasper Johns, Willem de Kooning, passando por Miro, Antoni Tàpies e toda a pintura não realista. Depois, o construtivismo, o expressionismo abstracto e a arte conceptual. Transitários do descrédito do marxismo corno explicação global do mundo, à substituição do futurismo da pintura. A morte de Karl Marx como símbolo ideológico traçou os limites entre duas etapas, o começo duma nova era, cuja queda tem um enorme significado histórico que começamos agora a presenciar.

    É daqui que se produz o homem light. Dessa zona de indefinição, desse caminho sem meta. O frenesim da diversão e afirmação de que tudo vale o mesmo mostra-nos um homem para o qual é mais importante a rapidez em alcançar o desejado que a meta em si. Esta apoteose do superficial foi tendo uma série de dramáticas consequências: a dependência do sexo, da droga, do jogo, dos sedativos e do zapping, todos como ansiolíticos. Embora sendo manifestações diferentes, têm um fundo comum.

    No que respeita ao sexo, numa reportagem recente da agência Europa Today (3-II-92) analisam-se os efeitos de uma precoce iniciação sexual, de tal forma que as gravidezes e os abortos entre adolescentes duplicaram em alguns países europeus. As relações são estimuladas continuamente na televisão, a qual leva a fazer uma experiência imediata desta realidade que, por vezes, tão pouco se conhece. Os jovens não têm recursos psicológicos nem educativos nem de formação para controlar este aluvião. Por outro lado, o tráfico de vídeos porno em alguns países como a Alemanha é uma grande preocupação actual. Com o pensamento light como bandeira, não se pode censurar esta conduta comercial. Porque é que isso não é bom, se agrada às pessoas e não causa dano a ninguém? Através do ibertex alemão, o mais desenvolvido da Comunidade Europeia, podem-se conseguir as imagens sexuais mais alucinantes, surpreendentes e depravadas que se possam imaginar. Trata-se de materiais nos quais a mulher é humilhada e apresentada como objecto de prazer, de usar e deitar fora, de subordinação e submissão servil.

    A pornografia é todo o contrário da sexualidade verdadeira, frustra o autêntico progresso moral do homem, e conduz as relações entre homem e mulher a um comércio de exploração. Para alguns essa é uma prova evidente de liberdade, contudo não é desde o início um caminho acertado deixar-se escravizar e viver sujeito a algo que exige constantemente uma conduta sexual que nos pode desorientar e criar a sensação de perda de si mesmo. No lightismo confunde-se liberdade com pornografia, equiparam-se sem que isso importe demasiado. Portanto uma sociedade que não é capaz de criticar isto, debilita as suas bases morais e deforma os comportamentos humanos, que só se movem instintivamente e com um sentido muito materialista. Outra epidemia que afecta a sociedade do homem light, mais directamente relacionada com a juventude, é a droga, daí a sua gravidade.

    Doutro lado está a dependência do jogo que constitui uma nova enfermidade: as balanças automáticas, as maquinetas dos jogos recreativos que prendem os seus consumidores, que não se conseguem subtrair à sua inclinação, chegam a criar uma dependência parecida à de uma droga. A ludopatia é definida na actualidade como uma afeição compulsiva pelo jogo; desde a lotaria às apostas organizadas, passando pelas suas diferentes formas. É uma tendência irresistível.

    Quanto aos fármacos tranquilizantes, os dados estão aí. Segundo o Semanário francês L’Express (25-1-91), entre 1984-1990 as receitas de tranquilizantes aumentou 75 por cento, o que equivale a um custo de mais de mil e quinhentos francos por pessoa. Os ansiolíticos constituem o recurso mais fácil. Porquê? Busca-se o desejo de evasão da realidade pessoal, não gratificante e com um grande vazio existencial.

    Há um caso curioso e que se pode ler no The Independent (12-11-92). Depois da etapa denominada libertação sexual, que conduziu à desinibição total e ao desfrute de todos os prazeres corporais, surge a associação Sexalholics Anonymous, algo parecido com os alcoólicos anónimos, a pedir ajuda no sentido de pôr fim à campanha sexual actual, levada a cabo sobretudo pela televisão e os mass media. Os que pertencem a esta colectividade são pessoas para quem a actividade sexual se converteu num impulso incoercível e incontrolável numa obsessão e numa dependência das quais não é possível escapar. O sexo aparece como algo irresistível, insaciável, que obriga a pensar em ter relações físicas com qualquer pessoa que se aproxima; uma questão que se reduz a uma busca desesperada e sem tréguas de sexo uma e outra vez… Assim sucessivamente, acabando o sexo — dependente por não ver nos demais senão simples objectos como consequência de uma conduta primária.

    Mas há ainda outra dependência, sobretudo nos U. S. A., os workaholics ou dependentes do trabalho, geralmente Yuppies sedentos de dinheiro e de êxito profissional, que costumam colher tremendos fracassos afectivos e familiares, qual preço a pagar por chegar ao topo da carreira profissional, pondo de lado todos os valores da sua vida; quer dizer, o homem light apresenta um perfil especialmente claro.

    Outro país com o mesmo problema, porém mais agravado, é o Japão, onde esta dependência do trabalho se chama karoshi; aconcontece especialmente entre os quarenta e cinquenta anos, não por iniciativa própria, mas porque são explorados pelas suas empresas, onde o conceito de rendimento é quase como que uma religião.

    Há uma novidade recente na psiquiatria americana: os sujeitos dependentes do psicoterapeuta são pessoas que sofrem crises de identidade, não se encontram a si mesmas, estão perdidas ou não sabem como são nem o que querem na vida.

    Por último a dependência em não ser gordo ou a luta por manter um perfil adequado, numa sociedade em que a magreza é «mais que fundamental». Daqui deriva o síndroma do fastio/febre de comer, negar-se a comer, tomar laxativos e inclusive provocar o vómito com o fim de manter a figura esbelta…; de vez em quando, a fome insaciável ou a paixão incontrolada do grande comilão, acompanhada de uma reacção de pranto e vómito de tudo o que se ingeriu.

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