Sexualidade vazia e sem rumo
Maio 12, 2008 at 8:53 am | In amor, comportamentos, sexualidade, sociedade | Leave a CommentEnrique Rojas
O Homem light
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994
(excerto adaptado)
SEXUALIDADE LIGHT
Sexualidade vazia e sem rumo
Assistimos hoje em dia a uma idolatria do sexo. Os meios de comunicação e, em especial, o cinema e a televisão, serviram-no-lo de bandeja. Há sexo por todo o lado, sem afectividade nem amor, apenas como um itinerário serpenteante, divertido e turbulento, no qual se misturam valores como a conquista, a busca do prazer e o desfrutamento sem restrições. Os meios de comunicação prometem a libertação e o encontro consigo mesmo em paraísos de sensações maravilhosas: sexo sem fim, diversão, jogo caprichoso. Assim se pretende enganar e convencer o homem de que sexo e amor significam o mesmo, de que praticar o sexo é interessante, sem ser necessário propôr-se mais nada. Tudo desde um ponto de vista materialista e desumanizado.
Vivemos numa época confusa quanto a este aspecto, já que perdidos os pontos de referência, uma vez que os valores se perderam, tudo se torna relativo, descendo nós pela rampa do subjectivismo e do egocentrismo, numa palavra: egoísmo. Cada um tem um código particular de valores em que se deixa de chamar às coisas pelos seus nomes. Chega-se assim a um amor rebotalho: tudo a baixo preço, ligeiro, light, sem conteúdo, insubstancial, sem rumo; uma relação anónima, indiferente, passageira, que se leva a cabo de forma animal e primária na primeira oportunidade que surge. Numa palavra: sexualidade sem importância, sem interesse, desvalorizada, carente de autêntica intimidade, na qual não existe amor — ainda que este termo se adultere e utilize indevidamente —, mas sim encontros físicos para desfrutar reciprocamente e nos quais acontece utilização mútua. Contudo, o amor verdadeiro torna o homem mais humano, transforma o seu passado e ilumina o seu porvir; é uma síntese de ingredientes físicos, psicológicos e espirituais. Com o amor verdadeiro somos mais donos de nós mesmos, e enobrecemo-nos. É que este tem os ingredientes necessários: é exclusivo e brota de uma afinidade que se move até à eleição; e faz com que se produza uma excursão até à intimidade da outra pessoa, com tudo o que isso implica: descobri-la e tornar-se participante nos seus desejos e ilusões.
Tal como no adulto, isto também se passa com a criança e o adolescente: ambos descobrem a vida com o passar do tempo, gradualmente, acostumando-se à sua complexidade e artifícios. Quer dizer, pratica-se uma espeleologia interior ou uma descida às zonas profundas da personalidade, com o intuito de ficar agarrado a elas. Contudo, nas relações light isto não é possível, porque não há uma pretensão de conhecer o outro; porque é transitório, epidérmico e intranscendente.
Tudo o que comporta o amor verdadeiro traduz-se num gozo interior que é promessa de futuro e necessidade de compartilhar a vida, arriscando-a. Encontra-se uma pessoa que vale a pena, uma pessoa ante a qual um alguém se detém e com a qual põe a possibilidade de iniciar um caminho. Ou dito de outro modo: Também podemos descobrir terras inexploradas e saber o que há por detrás delas. Tudo isto é a atracção, pela qual alguém se coloca na disposição de jogar tudo numa cartada. Não é algo o que vemos mas alguém interessante e valioso que provoca em nós admiração*. É um achado misterioso e fascinante que, quando consigo leva tudo por diante, nos apraz recordar como um desses momentos siderais da existência.
*A condição sine qua non para se enamorar de outra pessoa é a admiração: querer penetrar no seu conhecimento, ver o que há aí, buscar o seu conteúdo, intimamente; descobrir o complemento da beleza exterior, quer dizer, a harmonia e a ordem ou coerência interior. Esta viagem psicológica constitui uma das vivências mais inolvidáveis pela qual pode passar o ser humano.
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