
O FALSO TIO
A Professora Carolina está a escrever números no quadro.
— Prestem muita atenção! — pede. — Estes exercícios são difíceis.
Leo irrita-se mas não é por causa dos exercícios. Acha-os super-fáceis mas, mesmo assim, não consegue estar atento, e a culpa é de Paulina, que está a mascar uma pastilha-elástica. A meio da aula! E faz tanto barulho, que mais parece um hipopótamo. A Professora Carolina nem sequer ralha. Faz contas e mais contas, e não repara em nada.
— Não podes mascar pastilha-elástica nas aulas — sibila Leo.
Paulina sorri, rebusca no bolso das calças, tira uma caixa e estende-lha.
— Queres uma? — pergunta.
Ainda por cima!
— É proibido mascar nas aulas — insiste Leo com veemência.
— Leo! Nada de conversas! — adverte a Professora Carolina.
Leo assusta-se. Não gosta quando a professora fala com ele daquela maneira.
— Mas a Paulina…
Morde depressa os lábios. Não se deve fazer queixa das pessoas, costuma dizer o pai.
Ufa, não é nada fácil fazer sempre o que é correcto!
*
Felizmente, toca para o intervalo.
— Vamos jogar? — pergunta Paulina.
Nem pensar!
De certeza que a mãe não gosta que ele brinque com uma menina destas. Já chega ter de estar sentado ao lado dela.
Às vezes, Paulina chega atrasada, está sempre a esquecer-se das coisas e depois pega nas de Leo. Assim, sem pedir. Ocupa a carteira toda, dá-lhe cotoveladas e empurra-o. Além disso, tem uma voz tão estridente! Se alguma coisa não está bem, começa aos guinchos como uma sirene. Leo até fica com dores de ouvidos.
Uma vez por outra, conta em casa as confusões que Paulina arranja. A mãe abana a cabeça e pergunta:
— Porque é que foste sentar-te ao lado dela?
Mas não foi Leo. Paulina é que simplesmente se sentou ao lado dele e disse à Professora Carolina:
— O Leo é meu amigo.
É mentira.
Leo não é amigo de ninguém, e muito menos daquela Paulina.
— Então? — insiste Paulina. — Jogamos ou não jogamos?
Leonardo abana a cabeça. Paulina encolhe os ombros e afasta-se.
*
As aulas finalmente acabaram. Leo apressa-se a vestir o casaco e sai a correr.
— Espera por mim! — grita Paulina.
Nem pensar!
Paulina mora na mesma rua de Leo. Por vezes ia com ela para casa, mas a mãe ficava muito zangada porque ele chegava sempre atrasado. E a culpa era de Paulina que é uma atrasadinha. Equilibra-se em todos os muros de jardim e dá pontapés a todas as latas velhas. Carrega no botão de todos os semáforos, embora não queira atravessar, só para obrigar os carros a parar.
Às vezes, pára no quiosque dos jornais. O vendedor tem um cachorrinho com o qual ela gosta de brincar. Quando vai embora, leva sempre qualquer coisa: um rebuçado ou um chupa-chupa. E não se deve pedinchar. A mãe de Leo não gosta nada disso.
Leo olha novamente à sua volta. Paulina está de joelhos no passeio. Encontrou uma pedra e começou a desenhar. Ela gosta de fazer desenhos no chão e muitas vezes escreve coisas estúpidas: O Marcu é palérma.
Palerma é ela, que não sabe escrever direito! Mas o que é que ele pode fazer? Hoje, pelo menos, Leo livrou-se dela. Ainda bem!

O desconhecido no carro
Um carro pára ao lado de Leo. O condutor baixa o vidro e faz-lhe sinal.
— Eh, espera aí!
Leo pára, hesitante. Está com uma sensação esquisita na barriga.
— Como é que te chamas? — pergunta o homem.
Leo preferia não responder, mas não pode ser. O homem é adulto, e a avó está sempre a dizer que não se pode ser indelicado com os adultos. De certeza que o desconhecido só quer perguntar o caminho.
Por segurança, Leo dá um passo atrás, antes de murmurar:
— Chamo-me Leo.
O homem sai do carro. Leo sente os joelhos moles. Mas porquê? O homem ri amavelmente. Leo é que é um medricas, como o pai costuma dizer.
Leo não quer ser nenhum medricas.
— Leo? — volta a perguntar o homem.
Leo faz um sinal afirmativo com a cabeça.
— Óptimo — o homem parece ficar contente.
— Andava mesmo à tua procura!
— À minha procura? — admira-se Leo.
— Sim. A tua mãe mandou-me vir buscar-te à escola e levar-te a casa sem demora.
O homem faz com a mão um sinal convidativo.
— Vá, entra, por favor.
Entrar? Nem pensar! Leo não pode ir com pessoas que não conhece. A mãe proibiu-o.
Pelo sim pelo não, dá outro passo atrás.
— Eu não o conheço — murmura.
“Esperemos que não fique ofendido”, pensa Leo. Não, até se ri!
— Sou um parvo! — exclama, batendo com a mão na testa. — Ainda nem me apresentei. Ora bem, rapaz, eu sou o tio Zé!
O homem dá a volta ao carro e vem estender a mão a Leo.
Leo agarra-a, hesitante.
O tio Zé? Leo esforça-se por se lembrar… Nunca ouviu falar de nenhum tio Zé.
O homem olha para ele como quem o examina.
Leo sente-se cada vez mais desconfortável com o seu olhar.
— Não acredito! — diz o homem admirado. — A tua mãe nunca falou de mim?
Leo sacode a cabeça.
— Ah, então vou já dizer-lhe das boas! — diz o homem. — Mas agora entra para o carro. Bem sabes que ela não gosta de esperar.
É verdade.
A mãe detesta esperar E se o homem sabe disso, é porque deve conhecer a mãe.
E, então, de certeza que é o tio Zé, não? Sim.
Mas apesar de tudo…
Este tio parece a Leo um pouco suspeito.
*
O tio desconhecido ainda segura a mão de Leo. É uma sensação esquisita. Leo quer retirar a mão mas, nisto, o homem agarra-lhe o braço e aperta-o com força. Aquilo dói!
— Ai! — queixa-se Leo.
Mas o homem continua a apertar.
— Vamos lá acabar com o teatro! — diz. De repente, a voz deixou de soar simpática e ele quer arrastar Leo para o carro.
Com o susto, Leo fica hirto. Finca os pés no chão, mas não adianta. O homem é muito mais forte.
— Vou dizer à tua mãe que te portaste muito mal! — ameaça.
Leo sente o bater do coração no peito. A mãe não gosta que Leo se porte mal. Mas de certeza que gosta ainda menos que alguém lhe puxe pelo braço. Ainda que esse alguém seja o tio Zé!
Leo quer gritar, mas tem um nó na garganta e não consegue. O homem já abriu a porta do carro.
De repente, ouve-se um grito agudo como uma sirene:
— Largue-o!
O homem olha em volta. Paulina chega a correr.
— Largue-o! — guincha ela. — É o meu amigo!
Não é verdade. Não é nada verdade mas, mesmo assim, Leo sente-se contentíssimo por ela estar ali e por dizer aquilo.
O homem fica furioso. Diz um palavrão e empurra Leo para o lado. Leo cai, mas o homem não se preocupa. Salta para o carro e arranca a toda a velocidade com um chiar de pneus.

Um tio estranho
Paulina estende a mão a Leo e ajuda-o a levantar-se.
— Magoaste-te? — quer saber.
Esquisito. Quando empurra alguém no recreio, não fica nada preocupada.
— Não, está tudo bem — responde Leo. Mas não é verdade. Dói-lhe a perna e o braço. E o nó na garganta está agora maior. Apetece-lhe chorar.
— O que é que ele queria? — pergunta Paulina.
Leo encolhe os ombros.
— O homem disse que era o meu tio Zé — explica, inseguro.
— Que tio tão esquisito! — acha Paulina.
Leo é da mesma opinião. Por isso, desata a chorar. Entre soluços, conta a história toda a Paulina.
— Ele disse que era teu tio? — exclama Paulina, indignada. — Nunca na vida! Estava a mentir.
A mentir? Que susto! Leo quase entrara no carro de um desconhecido.
— Não digas à minha mãe — pede ele. — De certeza que ia ralhar comigo.
— Não acho! — diz Paulina com convicção. — Temos de contar-lhe tudo!
Pega na mão de Leo e leva-o embora dali.
*
O quiosque dos jornais é logo na esquina. Um cachorrinho vem ao encontro das crianças a ladrar alegremente.
— Desculpa, Bobby — diz Paulina. — Hoje não tenho tempo para brincar.
Dirige-se ao vendedor e pede-lhe:
— Podemos fazer um telefonema?
— O quê? — admira-se o vendedor de jornais. — O que há assim de tão importante?
Mas estende o seu telefone a Paulina.
— O teu número de telefone! — pede Paulina impaciente.
Não é nada fácil. Leo baralha os números e só à terceira tentativa é que acerta. Paulina marca.
O coração de Leo bate com força. E se o homem fosse mesmo um tio seu? Deve estar zangadíssimo!
— É a mãe do Leo? — pergunta Paulina naquele momento. — Estamos a telefonar por causa do tio Zé.
Leo não consegue perceber o que a mãe diz, mas a voz dela soa muito aflita.
Paulina ouve e acena com a cabeça.
— Foi o que pensámos. Não, está tudo bem com o Leo. Sim, ficamos à espera no quiosque.
Paulina devolve o telefone.
— Ela está zangada? — pergunta Leo, preocupado.
— E de que maneira! — diz Paulina energicamente. — Mas com o falso tio Zé.
Um caso de polícia
— Agora conta-me lá o que se passou! — pede o vendedor de jornais.
Mas Leo ainda está muito agitado. Paulina, não, e conta a história toda. O vendedor escuta, preocupado. Depois, pega novamente no telefone.
— Isto é um caso para a polícia! — explica, e começa a marcar o número.
Polícia? Oh, não! Leo nunca teve nada com a polícia. Esperemos que não seja difícil. Paulina parece não se preocupar com isso. Já está ajoelhada no passeio a desenhar.
É tão corajosa!
O cãozinho lambe a mão de Leo. Este debruça-se, faz-lhe festinhas, e vai ficando mais calmo.
— Leo!
A mãe chega esbaforida. Leo corre para ela. A mãe pega nele ao colo e abraça-o com muita força.
— Estou tão contente por não te ter acontecido nada! — repete a mãe constantemente, chorando e rindo ao mesmo tempo.
Um carro da polícia pára ao lado do quiosque e dois polícias saem precipitadamente. Leo tem de contar a história outra vez mas, aconchegado nos braços da mãe, já não é tão difícil.
Os polícias querem saber tudo ao pormenor. O que o homem disse, como era, que carro tinha.
O carro!
Era ameaçador mas, Leo nunca o tinha visto. E é tudo de que se lembra.
Paulina diz então:
— O carro era azul e até tenho a matrícula.
Aponta para o passeio. Tinha escrito a matrícula com a pedra.
— Céus! És esperta! — elogiam os polícias. A mãe também acha.
— Nem sei como posso agradecer-te — diz. — Ainda bem que tomaste conta do Leo.
— Mas tenho mesmo de tomar! — diz Paulina. — O Leo é meu amigo.
Leo sente um calor na barriga e está muito contente por ser amigo de Paulina.
*
A Professora Carolina está a explicar as contas, mas Leo não consegue prestar atenção. Nos últimos dias aconteceram muitas coisas e é nisso que está a pensar.
A polícia conseguiu prender aquele falso tio. O anotar da matrícula por Paulina ajudou. O homem era um temido criminoso que a polícia procurava há já algum tempo. Agora, encontra-se na prisão, e já não pode fazer nada a Leo nem a outras crianças. Ainda bem que Leo não guardou a história para si!
A mãe quis passar a ir buscá-lo sempre à escola. Felizmente conseguiu convencê-la de que não é preciso, porque vai sempre para casa com Paulina. “E se acontecer alguma coisa, venham sempre ter comigo”, disse o simpático vendedor de jornais.
Isso fazem eles, mesmo não tendo acontecido nada! Comem um rebuçado ou um chupa-chupa e brincam com o Bobby.
Leo desenhou um cãozinho no passeio ao lado do quiosque e Paulina escreveu por baixo:
O Bobi é crido.
Querida é ela, mesmo que ainda não escreva muito bem!
Claro que, agora, Leo chega um pouco mais tarde a casa, mas a mãe não ralha. Fica contente por ele ter uma amiga tão simpática.
Entretanto, a Professora Carolina acabou a explicação.
— Leo, começa a trabalhar!
Paulina já está a fazer as contas. Masca uma pastilha elástica e faz tanto barulho, que mais parece um hipopótamo!
E ainda bem! Assim, Leo sabe que ela está ao lado dele.
E, satisfeito, debruça-se sobre os exercícios.
Frauke Nahrgang
Nein, ich geh nicht mit, ich kenn dich nicht!
Würzburg, Arena Verlag, 2007
(Tradução e adaptação)
