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O pequeno Urso e o Lobo grande brincam juntos. Mas nem sempre as brincadeiras são inocentes. Podem até ser muito perigosas…

 

 

 

Pensa nisto:
O teu corpo é só teu. É algo de muito especial.

MEDITAÇÃO LABIRÍNTICA

A meio da minha vida, escrevi este pequeno texto esperando vir a partilhá-lo com um dos meus filhos. Mais tarde, pareceu-me demasiado sério, demasiado grave, para ser objeto de uma partilha. E assim ficou perdido no meio de papéis.

*

Desde logo, no início do labirinto, não confundir amor com apego. Se sigo a via do amor, posso começar finalmente a compreender que, no amor, sou levado em direção ao outro. Este caminho levar-me-á a recuar bem longe na minha vida e na minha história para encontrar as fontes do amor.

A fonte do amor, aquilo que lhe confere a sua energia, está no amor por si próprio. É o amor por si próprio que permite, que autoriza – no sentido de tornar autor – o dom de amar. Mas dá-lo em amor, esta forma de se dar, só é, obviamente, possível, se o meu próprio desejo de amar não for terrorista a ponto de eu querer impor o meu amor ao outro. Continuar a ler »

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A menina por detrás da janela

 Era uma vez, num país cinzento e frio, um Rei que adorava uma menina.

A menina era tão bonita que o Rei se apaixonara por ela. Como a queria sempre junto de si, lançou-lhe um feitiço e transformou-a em boneca. Oferecia-lhe colares e travessões em veludo para os cabelos e, todas as noites, passava longas horas com ela. Deitava-a a seu lado e acariciava-a com tanta paixão que a boneca quase asfixiava.

Quando o dia despontava, o Rei partia e a boneca ficava sozinha. A porta do quarto não estava fechada. A boneca podia sair e fugir mas, como achava que o Rei ficaria desgostoso, não ousava fazê-lo. As suas pernas de algodão não a deixavam andar e, como não tinha boca, tinha medo de perder-se e de não conseguir perguntar o caminho.

Então, quando o Rei se ia embora, ela ficava sentada à janela, com a cara apoiada contra o vidro frio, a olhar para a rua com tristeza. Foi assim que os seus lábios acabaram por desaparecer. Primeiro tornaram-se transparentes, como Continuar a ler »

 

A pequena NÃO e a grande NÃO

 

A pequena NÃO está sentada num banco do parque a comer chocolate.

É muito pequenina, minúscula e fala muito baixinho.

 

 

Chega uma senhora gorda e pergunta:

— Posso sentar-me à tua beira?

A pequena NÃO sussurra:

— Não, preferia ficar sozinha.

A senhora grande e gorda nem ouve, e senta-se no banco.

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A menina que deixou de sorrir

 

Chamo-me Lisa. A minha melhor amiga é a Paulina. Ela sabe todos os meus segredos. Menos um. Um segredo horrível que não posso contar a ninguém.

Divido este segredo com um adulto. Ele vê muitas vezes televisão comigo. Quer ser sempre ele a dar-me banho. Compra-me bombons, brinquedos, e dá-me dinheiro para eu ficar calada. Esse adulto não se cansa de repetir que, se a minha mãe souber do nosso segredo, vai deixar de gostar de mim e vai dizer que sou uma mentirosa e que depois eu vou para a cadeia.

Por isso, não digo nada. Já quase não falo. Já não rio, já não sorrio (deixei de rir, deixei de sorrir?). A minha mãe pergunta-me muitas vezes:

— Está tudo bem, Lisa?

Eu não respondo. Tenho medo que o meu horrível segredo saia da minha boca. Baixo a cabeça e aperto os dentes com força. O segredo invade o meu corpo todo. Tapa-me os ouvidos, já não oiço música. Turva-me os olhos, já não leio os meus livros. Enche-me o coração, já não brinco a nada.

Todas as noites tenho pesadelos horríveis e acordo a suar. Tenho vontade de me atirar para o passeio e de me partir como uma boneca de porcelana. Sinto-me tão suja por dentro, que passo horas e horas debaixo do chuveiro. Queria mudar de pele como se muda de roupa. Gostava de me tornar novamente bonita e limpa. Gostava de sorrir como antes… como antes…

Os dias e as semanas passam. As minhas notas descem. E, para esquecer, corro. Corro no parque, no passeio, nos corredores da escola… Mas não posso fugir para lado nenhum. O segredo agarra-se a mim.

Na escola, ouço a voz da professora Marta. E não consigo concentrar-me. Num pedaço de papel, desenho uma menina a correr, perseguida por um homem grande. Numa outra folha, rabisco uma menina a gritar, mas não se ouve, não passa de um desenho. A sineta toca para o recreio. Deixo tudo e fujo lá para fora. A Paulina joga à bola com alguns colegas. E eu sento-me na areia e garatujo uma menina…

A professora Marta vem sentar-se ao meu lado.

— A menina do teu desenho está a fazer o quê, Lisa?

— Ela… ela está a fugir…

— Sabes a história dessa menina? — pergunta a professora Marta.

— Sim… Ela acorda de noite com Continuar a ler »