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Archive for the ‘adolescência’ Category

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Correr e contar

Aos sábados, quando acabo a aula de dança, apanho o autocarro para ir para casa. Depois de me sentar, passo o tempo a olhar pela janela. Entretenho-me a ver as pessoas e os carros que passam.
Um dia, estava tão distraída que nem dei por um senhor, igual a tantos outros, que se sentou a meu lado. Faltavam duas ou três paragens para a minha casa quando, de repente, esse senhor igual a tantos outros, começou a tocar-me nas pernas disfarçadamente. Fiquei assustadíssima.
Levantei-me logo que pude e pedi-lhe que me deixasse passar; ao sair do lugar, ainda senti as suas manápulas. Sentia uma enorme raiva, mas corri até à porta e carreguei várias vezes na campainha.
Felizmente que o autocarro parou logo.
Saltei para o passeio e iniciei uma correria louca, em direcção a casa.
Sentia que aquele senhor me perseguia.
Quando cheguei a casa, a minha mãe (mais…)

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Foi um erro o meu primeiro beijo

Vais fazer algumas asneiras,
mas vais fazê-las com entusiasmo.

Colette

Quem me dera poder devolver o meu primeiro beijo. Quem me dera que não tivesse sido dado por despeito ou vingança. Quem me dera não ter sido estúpida e não ter bebido naquela noite. Dos muitos desejos que tenho, o mais importante seria ter feito tudo de maneira diferente para não me sentir presa a estas memórias.

A festa dos 16 anos, sobretudo quando são os nossos, deveria ser sempre algo para mais tarde recordar com carinho e orgulho. Um momento inesquecível!

A noite teve um início perfeito. A minha melhor amiga e eu partilhávamos a festa e ela chegou a minha casa para acabar de se arranjar. Ajeitámos os vestidos e pusemos maquilhagem enquanto ouvíamos a música ruidosa de Justin Timberlake e de 50 Cent. Uma hora antes da nossa festa, Katie tirou uma garrafa de vodka.

— Fazemos dezasseis anos — disse, tirando a rolha. — Diverte-te e bebe.

Embora fosse diluído em sumo, o álcool queimava-me a garganta e o estômago, e imediatamente me causou um zumbido na cabeça. Sentia-me como se fosse outra pessoa, mas a sensação não era má de todo. Era uma flor de estufa, a rapariga tímida do fundo da sala que sabia as respostas mas não ousava levantar a mão e responder. Por isso, sentir-me outra pessoa até era bom, sobretudo na noite do meu aniversário.

Esse foi o meu primeiro erro: não ser eu mesma.

O segundo (mais…)

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Carta Aberta a um Jovem

Caro Jovem

 

Não há nada de antiquado no facto de procurares comportar-te com dignidade nas tuas relações com o sexo oposto. O teu corpo não é um objeto, nem um qualquer mecanismo que não possas controlar.

Numa relação, o afeto é muito mais importante do que o sexo. A falta de carinho leva a que as pessoas acabem por se tornar agressivas uma com a outra. Nunca te precipites. Os contactos sexuais não te farão mais próximo de quem julgas gostar.

É uma grande ilusão confundir-se atração física com amor. Deixa as experiências sexuais para quando tiveres uma relação verdadeiramente madura, ou podes ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, tudo se desmoronará. Não coloques o prazer à frente do carinho e do respeito. Deixa que o tempo exerça a sua ação. Já experimentaste comer um fruto ainda verde?

Fala-se muito de amor, quando, na maior parte dos casos, tudo não passa de aparência. Não antecipes experiências que só devem ser vividas quando houver respeito e ternura bastantes para tornarem sólida uma relação. De outra forma, apenas encontrarás o vazio.

A precipitação pode ter consequências sérias: uma gravidez não planeada, por exemplo. Interrompe-se a gravidez, dirás tu. E achas correto matar uma vida, sobretudo quando foi a tua irresponsabilidade que a criou?

Não te esqueças também das doenças transmissíveis por via sexual, e do enorme sofrimento que poderão causar. Relações sexualmente protegidas serão a solução, pensarás. Pois convence-te de que a solução consiste em te tornares interiormente adulto e responsável, e aprenderes a agir com retidão e dignidade.

O ser humano não é um animal irracional que atua impelido pelo cio. É um ser pensante e criativo, com capacidade de escolha e de decisão, e que tem o dever de refletir sobre os seus atos.

Os muitos filmes e novelas incessantemente despejados na cabeça das pessoas distorcem o sentido da conduta humana, induzindo à vulgaridade e à imitação de comportamentos grosseiros, quando não claramente antiéticos.

Deves desenvolver o teu espírito crítico, para não te limitares a ser mais uma ovelha de um imenso rebanho obtuso e amorfo, que se deixa conduzir por qualquer um.

Não esqueças que a vida é uma oportunidade demasiado preciosa para a desperdiçares com caprichos e fantasias. Procura a justiça e tenta contribuir para uma sociedade melhor.

 

Com o desejo sincero de que sejas feliz.

 Anónimo

 

 

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Tens namorada, Jerónimo?

Ainda sou uma criança. O que não significa que seja um bebé. Bebé é a minha irmã Rosa, que ainda não sabe andar nem falar, e que faz xixi nas fraldas. Uma coisa é ser-se criança, outra é ser-se bebé.
Gosto de ir ao mercado com os meus pais. Paramos numa e noutra banca a fazer compras.
— Olá, Jerónimo — diz o peixeiro.
— Olá — respondo.
— Então, já tens namorada?



Hortênsia, a senhora que vende fruta, dá-me sempre alguma coisa: uma tangerina, uvas, uma banana…
— Obrigado — digo, para os meus pais não dizerem que sou mal-educado…
— Gostas?
— Sim.
— Ainda bem, Jerónimo… Já arranjaste uma namorada? — pergunta ela, também.



No outro dia, o telefone tocou e, como estava perto, atendi.
— Estou?
— Sou o Leonardo.
Leonardo é um amigo do meu pai. Jogam os dois numa equipa de futebol de salão aos fins-de-semana.
— Como vai isso, Jerónimo?
— Tudo bem.
— E então, como está a tua namorada?



No domingo, fomos comer a casa (mais…)

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Nova Cidadania II , Número 5, Julho/Setembro 2000
João do Estoril, Ed. Principia, Pub. Universitárias e Científicas

 

 

Excertos

 

Há nove meses, dois rapazes aparentemente banais, oriundos de famílias normais da classe média, entraram no liceu que frequentavam numa zona próspera perto de Denver, dispararam e mataram 12 dos seus colegas assim como a professora, antes de virarem as pistolas contra si próprios. Foi uma fratura na vida contemporânea americana, uma perda definitiva da inocência que levou os pais e os professores a encararem as suas crianças com um sentimento desconhecido, feito de ansiedade e de dúvida. Claro que já tinha havido outros tiroteios em escolas. No entanto, Columbine – cujo nome se instalou rapidamente no léxico – despertou com toda a força um medo latente: apesar de estarmos numa fase de expansão económica sem precedentes, algo de errado poderia estar a acontecer com as crianças da nação.

O que perturbou os americanos nos acontecimentos de Columbine foi a combinação da viciosidade extraordinariamente consciente do massacre com a pertença à classe média típica dos seus perpetradores e com o sítio da exação. Pode-se explicar a violência em escolas dentro das cidades. A pobreza e a delinquência urbana conjugam-se desde os tempos da Londres de Dickens. Aliás, apesar de ninguém o querer admitir publicamente, muitos americanos poderiam praticamente fechar os olhos aos tiroteios de Jonesboro (no Arkansas), ou de West Paducah (no Kentucky). O próprio Mark Twain não ensinou à nação que aquela gente das colinas e das baladas poderia, às vezes, tornar-se um pouco irracional?

Mas Columbine foi diferente. Columbine forçou-nos a perguntar se não estaríamos a negar a existência de uma doença no coração da cultura da classe média a que pertence a maioria das crianças americanas. “Onde estavam os pais?”, perguntaram alguns, intrigados; “Como será que dois adolescentes conseguiram reunir um tal arsenal nos seus próprios quartos sem que o pai ou a mãe reparassem nisso?”; “Que género de escola instituímos?” interrogaram-se outros, quando foi dito que os dois protagonistas faziam vídeos e redações sobre os seus ignóbeis fantasmas no âmbito dos respetivos trabalhos de casa, sem que ninguém ficasse particularmente alarmado com isso. (mais…)

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 Raquel Lito

 In Sábado nº 155 – 19 Abril 2007

 Excertos

O convite parte dela e não pode ser mais explícito: “Amor, vamos para a casa de banho?” Entusiasmado, o miúdo responde que sim, claro, e trancam-se nos sanitários da Escola António Arroio, em Lisboa, mesmo à frente da escadaria do segundo andar. Aí não há discriminação por sexos: tanto entram rapazes como raparigas (e às vezes esquecem-se de fechar a porta); as paredes estão cobertas de grafitis de cores garridas; e há mensagens de forte carga sexual. Também Sara deixa o seu contributo na parede. “Dei aqui uma queca três vezes”, escreve com uma esferográfica, depois da aventura sexual com o namorado, quando tinham ambos 16 anos. “É o sítio reservado onde podemos estar mais à vontade”, explica ela, habituada às brincadeiras proibidas na escola. Sem casa disponível, nem dinheiro para ir a uma pensão, Sara só via saída no liceu. “Sempre é gratuito”, ri-se. E se é certo que tinha receio de ser apanhada em flagrante, o desejo sobrepunha-se a tudo o resto. “Dava uma vontade… O medo deixava de ser importante.”

 

Sara corre riscos e tem noção do erro, mas também sabe que é difícil ser castigada. “Ninguém foi apanhado.” Percebe-se porquê: para 1300 alunos do liceu António Arroio, entre os 16 e os 21 anos, só há 20 vigilantes a funcionar por turnos – número reduzido para controlar o que se passa nas dez casas de banho, muitas delas em sítios desertos. “Isso exigia que os vigilantes estivessem em permanência nos sanitários, o que é impossível. Não temos recursos humanos suficientes”, diz à SÁBADO a vice-presidente do conselho directivo da escola, Benedita Salema, embora desconheça comportamentos sexuais no recinto. “Não há indícios de que isso tenha acontecido, nem recebemos queixas.”

 

As estatísticas contrariam a visão dos professores. Em média, 11 em cada 100 jovens portugueses entre os 16 e os 20 anos diz já ter praticado sexo na escola, alerta o Sex Survey 2005, promovido pela marca de preservativos Durex em 41 países. Portugal fica à frente da Finlândia, França, Alemanha, Grécia e Espanha, que apresentam uns tímidos 6 a 9% no que toca a este tipo de comportamentos. Outro número importante: 64% dos adolescentes iniciam a vida sexual aos 14 anos, segundo o estudo português Aventura Social & Saúde, da Faculdade de Motricidade Humana, terminado em Dezembro e que em breve será incluído nos relatórios da Organização Mundial de Saúde.

 

A banalização do assunto nos (mais…)

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