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Archive for the ‘crianças’ Category

Pensa nisto:
O teu corpo é só teu. É algo de muito especial.

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A menina que deixou de sorrir

 

Chamo-me Lisa. A minha melhor amiga é a Paulina. Ela sabe todos os meus segredos. Menos um. Um segredo horrível que não posso contar a ninguém.

Divido este segredo com um adulto. Ele vê muitas vezes televisão comigo. Quer ser sempre ele a dar-me banho. Compra-me bombons, brinquedos, e dá-me dinheiro para eu ficar calada. Esse adulto não se cansa de repetir que, se a minha mãe souber do nosso segredo, vai deixar de gostar de mim e vai dizer que sou uma mentirosa e que depois eu vou para a cadeia.

Por isso, não digo nada. Já quase não falo. Já não rio, já não sorrio (deixei de rir, deixei de sorrir?). A minha mãe pergunta-me muitas vezes:

— Está tudo bem, Lisa?

Eu não respondo. Tenho medo que o meu horrível segredo saia da minha boca. Baixo a cabeça e aperto os dentes com força. O segredo invade o meu corpo todo. Tapa-me os ouvidos, já não oiço música. Turva-me os olhos, já não leio os meus livros. Enche-me o coração, já não brinco a nada.

Todas as noites tenho pesadelos horríveis e acordo a suar. Tenho vontade de me atirar para o passeio e de me partir como uma boneca de porcelana. Sinto-me tão suja por dentro, que passo horas e horas debaixo do chuveiro. Queria mudar de pele como se muda de roupa. Gostava de me tornar novamente bonita e limpa. Gostava de sorrir como antes… como antes…

Os dias e as semanas passam. As minhas notas descem. E, para esquecer, corro. Corro no parque, no passeio, nos corredores da escola… Mas não posso fugir para lado nenhum. O segredo agarra-se a mim.

Na escola, ouço a voz da professora Marta. E não consigo concentrar-me. Num pedaço de papel, desenho uma menina a correr, perseguida por um homem grande. Numa outra folha, rabisco uma menina a gritar, mas não se ouve, não passa de um desenho. A sineta toca para o recreio. Deixo tudo e fujo lá para fora. A Paulina joga à bola com alguns colegas. E eu sento-me na areia e garatujo uma menina…

A professora Marta vem sentar-se ao meu lado.

— A menina do teu desenho está a fazer o quê, Lisa?

— Ela… ela está a fugir…

— Sabes a história dessa menina? — pergunta a professora Marta.

— Sim… Ela acorda de noite com (mais…)

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O FALSO TIO

 

A Professora Carolina está a escrever números no quadro.
— Prestem muita atenção! — pede. — Estes exercícios são difíceis.
Leo irrita-se mas não é por causa dos exercícios. Acha-os super-fáceis mas, mesmo assim, não consegue estar atento, e a culpa é de Paulina, que está a mascar uma pastilha-elástica. A meio da aula! E faz tanto barulho, que mais parece um hipopótamo. A Professora Carolina nem sequer ralha. Faz contas e mais contas, e não repara em nada.
— Não podes mascar pastilha-elástica nas aulas — sibila Leo.
Paulina sorri, rebusca no bolso das calças, tira uma caixa e estende-lha.
— Queres uma? — pergunta.
Ainda por cima!
— É proibido mascar nas aulas — insiste Leo com veemência.
— Leo! Nada de conversas! — adverte a Professora Carolina.
Leo assusta-se. Não gosta quando a professora fala com ele daquela maneira.
— Mas a Paulina…
Morde depressa os lábios. Não se deve fazer queixa das pessoas, costuma dizer o pai.
Ufa, não é nada fácil fazer sempre o que é correcto!

*

Felizmente, toca para o intervalo.
— Vamos jogar? — pergunta Paulina.
Nem pensar!
De certeza que a mãe não gosta que ele brinque com uma menina destas. Já chega ter de estar sentado ao lado dela.
Às vezes, Paulina chega atrasada, está sempre a esquecer-se das coisas e depois pega nas de Leo. Assim, sem pedir. Ocupa a carteira toda, dá-lhe cotoveladas e empurra-o. Além disso, tem uma voz tão estridente! Se alguma coisa não está bem, começa aos guinchos como uma sirene. Leo até fica com dores de ouvidos.
Uma vez por outra, conta em casa as confusões que Paulina arranja. A mãe abana a cabeça e pergunta:
— Porque é que foste sentar-te ao lado dela?
Mas não foi Leo. Paulina é que simplesmente se sentou ao lado dele e disse à Professora Carolina:
— O Leo é meu amigo.
É mentira.
Leo não é amigo de ninguém, e muito menos daquela Paulina.
— Então? — insiste Paulina. — Jogamos ou não jogamos?
Leonardo abana a cabeça. Paulina encolhe os ombros e afasta-se.

*

As aulas finalmente acabaram. Leo apressa-se a vestir o casaco e sai a correr.
— Espera por mim! — grita Paulina.
Nem pensar!
Paulina mora na mesma rua de Leo. Por vezes ia com ela para casa, mas a mãe ficava muito zangada porque ele chegava sempre atrasado. E a culpa era de Paulina que é uma atrasadinha. Equilibra-se em todos os muros de jardim e dá pontapés a todas as latas velhas. Carrega no botão de todos os semáforos, embora não queira atravessar, só para obrigar os carros a parar.
Às vezes, pára no quiosque dos jornais. O vendedor tem um cachorrinho com o qual ela gosta de brincar. Quando vai embora, leva sempre qualquer coisa: um rebuçado ou um chupa-chupa. E não se deve pedinchar. A mãe de Leo não gosta nada disso.
Leo olha novamente à sua volta. Paulina está de joelhos no passeio. Encontrou uma pedra e começou a desenhar. Ela gosta de fazer desenhos no chão e muitas vezes escreve coisas estúpidas: O Marcu é palérma.
Palerma é ela, que não sabe escrever direito! Mas o que é que ele pode fazer? Hoje, pelo menos, Leo livrou-se dela. Ainda bem! (mais…)

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