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Archive for the ‘sociedade’ Category

Carta Aberta a um Jovem

Caro Jovem

 

Não há nada de antiquado no facto de procurares comportar-te com dignidade nas tuas relações com o sexo oposto. O teu corpo não é um objeto, nem um qualquer mecanismo que não possas controlar.

Numa relação, o afeto é muito mais importante do que o sexo. A falta de carinho leva a que as pessoas acabem por se tornar agressivas uma com a outra. Nunca te precipites. Os contactos sexuais não te farão mais próximo de quem julgas gostar.

É uma grande ilusão confundir-se atração física com amor. Deixa as experiências sexuais para quando tiveres uma relação verdadeiramente madura, ou podes ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, tudo se desmoronará. Não coloques o prazer à frente do carinho e do respeito. Deixa que o tempo exerça a sua ação. Já experimentaste comer um fruto ainda verde?

Fala-se muito de amor, quando, na maior parte dos casos, tudo não passa de aparência. Não antecipes experiências que só devem ser vividas quando houver respeito e ternura bastantes para tornarem sólida uma relação. De outra forma, apenas encontrarás o vazio.

A precipitação pode ter consequências sérias: uma gravidez não planeada, por exemplo. Interrompe-se a gravidez, dirás tu. E achas correto matar uma vida, sobretudo quando foi a tua irresponsabilidade que a criou?

Não te esqueças também das doenças transmissíveis por via sexual, e do enorme sofrimento que poderão causar. Relações sexualmente protegidas serão a solução, pensarás. Pois convence-te de que a solução consiste em te tornares interiormente adulto e responsável, e aprenderes a agir com retidão e dignidade.

O ser humano não é um animal irracional que atua impelido pelo cio. É um ser pensante e criativo, com capacidade de escolha e de decisão, e que tem o dever de refletir sobre os seus atos.

Os muitos filmes e novelas incessantemente despejados na cabeça das pessoas distorcem o sentido da conduta humana, induzindo à vulgaridade e à imitação de comportamentos grosseiros, quando não claramente antiéticos.

Deves desenvolver o teu espírito crítico, para não te limitares a ser mais uma ovelha de um imenso rebanho obtuso e amorfo, que se deixa conduzir por qualquer um.

Não esqueças que a vida é uma oportunidade demasiado preciosa para a desperdiçares com caprichos e fantasias. Procura a justiça e tenta contribuir para uma sociedade melhor.

 

Com o desejo sincero de que sejas feliz.

 Anónimo

 

 

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Enrique Rojas
O Homem light
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994
(excerto adaptado)

 SEXUALIDADE LIGHT

Definição do amor humano

Fala-se hoje em dia muito de amores e, mais concretamente, de uniões sentimentais, mas muito pouco de amor, o que suscita uma grande confusão. A qualquer relação superficial e passageira damos-lhe o nome de «amor». Uma das formas mais representativas do amor é a que se pratica entre o homem e a mulher. A análise desse encontro, seus labirintos, as brechas por onde se deixa entrever, oferecem-nos uma série sucessiva de paisagens psicológicas muito interessantes, que ilustram o que é e em que consiste realmente o amor, já que falamos dele sem grande propriedade.

Há que voltar a descobrir o seu verdadeiro sentido, ainda que seja uma questão impopular e difícil de conseguir. Há que recuperar o termo no seu sentido teórico e prático, voltar a incluí-lo na nossa vida.

Em resumo: restituir-lhe a sua profundidade e o seu mistério. Esta é a tarefa deste capítulo e a primeira questão consiste em identificar e distinguir amor e sexo. Geralmente, em muitas relações sexuais há de tudo, menos amor autêntico, por mais que lhe apliquemos esse qualificativo; na realidade é paixão, pelo que desde logo não é amor. É claro que num mundo em crise de valores como é o nosso tudo vale, tudo é tolerável, admitimos qualquer coisa, concretamente no que se refere ao pensamento e às ideias.

O amor humano é um sentimento de aprovação e afirmação do outro, pelo (mais…)

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Enrique Rojas
O Homem light
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994
(excerto adaptado)

 SEXUALIDADE LIGHT

A relação sexual sem amor

Qualquer amor autêntico aspira ao estado absoluto. Um amor desse tipo enche o coração do homem de alegria e paz, e sacia-o interiormente, fá-lo sentir-se pleno. O grande objectivo é o bem, que pode ser de três tipos:

1. Bem útil. É considerado desde um ponto de vista prático. Por exemplo, é mais útil ir de Madrid a Buenos Aires de avião do que de barco, porque supõe ganho de tempo e dinheiro.
2. Bem agradável. Aquele que nos brinda com algum tipo de prazer, que percebemos por meio da satisfação que produz em nós.
3. Bem moral. Aquele que tem a bondade em si mesmo, já que aponta para a melhor evolução do ser humano, ainda que seja necessário esforço e luta para o conseguir. Por exemplo, Tomás Moro fez uma coisa boa quando se opôs a Henrique VIII, embora lhe custasse a vida; permaneceu na história o seu exemplo de bem moral e coerência interior.

Pois bem, na relação sexual sem amor autêntico o outro é um objecto de prazer. Não se procura o (mais…)

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Enrique Rojas
O Homem light
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994
(excerto adaptado)

 SEXUALIDADE LIGHT

Sexualidade vazia e sem rumo

Assistimos hoje em dia a uma idolatria do sexo. Os meios de comunicação e, em especial, o cinema e a televisão, serviram-no-lo de bandeja. Há sexo por todo o lado, sem afectividade nem amor, apenas como um itinerário serpenteante, divertido e turbulento, no qual se misturam valores como a conquista, a busca do prazer e o desfrutamento sem restrições. Os meios de comunicação prometem a libertação e o encontro consigo mesmo em paraísos de sensações maravilhosas: sexo sem fim, diversão, jogo caprichoso. Assim se pretende enganar e convencer o homem de que sexo e amor significam o mesmo, de que praticar o sexo é interessante, sem ser necessário propôr-se mais nada. Tudo desde um ponto de vista materialista e desumanizado.

Vivemos numa época confusa quanto a este aspecto, já que perdidos os pontos de referência, uma vez que os valores se perderam, tudo se torna relativo, descendo nós pela rampa do subjectivismo e do egocentrismo, numa palavra: egoísmo. Cada um tem um código particular de valores em que se deixa de chamar às coisas pelos seus nomes. Chega-se assim a um amor rebotalho: tudo a baixo preço, ligeiro, light, sem conteúdo, insubstancial, sem rumo; uma relação anónima, indiferente, passageira, que se leva a cabo de forma animal e primária na primeira oportunidade que surge. Numa palavra: sexualidade sem importância, sem interesse, desvalorizada, carente de autêntica intimidade, na qual não existe amor — ainda que este termo se adultere e utilize indevidamente —, mas sim encontros físicos para desfrutar reciprocamente e nos quais acontece utilização mútua. Contudo, o amor verdadeiro torna o homem mais humano, transforma o seu passado e ilumina o seu porvir; é uma síntese de ingredientes físicos, psicológicos e espirituais. Com o amor verdadeiro somos mais donos de nós mesmos, e enobrecemo-nos. É que este tem os ingredientes necessários: é exclusivo e brota de uma afinidade que se move até à eleição; e faz com que se produza uma excursão até à intimidade da outra pessoa, com tudo o que isso implica: descobri-la e tornar-se participante nos seus desejos e ilusões. (mais…)

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Enrique Rojas
O Homem light
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994
(excerto adaptado)

 SEXUALIDADE LIGHT

As três caras do acto sexual

 

A relação sexual deve ser definida a partir do amor. Por outro lado, a sexualidade é uma linguagem pela qual transmitimos a afectividade, já que a pessoa, porque é sexuada, necessita de um intercâmbio físico, e isto implica exceder o mero contacto sexual, ir para além de si, mesmo, buscar a promoção do outro em todos os âmbitos da vida. É encontrar o casal como projecto, como programa comum, arriscando-nos nesta aventura em que é necessário tomar uma determinação extrema se se quer que não fracasse.

Leibnitz dizia no seu livro Noveaux essais: «Amor quer dizer sentir-se inclinado a alegrar-se na perfeição e no bem do outro, na sua felicidade». Não há amor sem alegria, porém na relação sexual light o que existe é um bem-estar sem alegria autêntica. É um estalido de prazer fugaz, que não ajuda à maturação da personalidade; um consumo de sexo nas suas diferentes versões. A pornografia, as revistas, os vídeos, os telefones eróticos, etc, converteram-se num grande negócio, em que se exploram as paixões mais ligadas aos instintos, em que se potência o mais primário do homem, porém desligado do seu fim amoroso. Por isso, a sexualidade light não faz mais com que alguém seja dono de si mesmo, nem melhora a personalidade, nem torna o homem mais compreensivo e humano. Introdu-lo num carrocel de sensações orgásmicas e de um consumo de sexo que cada vez pede mais e que conduz a uma neurose obsessiva de o conseguir e, em consequência, a uma desumanização.

O acto sexual com amor de verdade consta de três ingredientes essenciais: a) físico; b) psicológico; e c) espiritual. O outro é aceite como pessoa e o facto de ficarem despidos um frente ao outro produz uma entrega singular na qual ambos dão e recebem amor. São duas intimidades que se fundem e buscam ajuda, e compartilham a vida com tudo o que esta comporta. Essa conjunção é reciprocidade. (mais…)

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 Enrique Rojas
O Homem light
Coimbra, Gráfica de Coimbra, 1994
(excerto adaptado)

SEXUALIDADE LIGHT

As cadeias e escravidões do mundo livre

Quase todos os movimentos vanguardistas perseguiram arduamente a paixão frenética como novidade. Agora estamos na pós-modernidade. Há uma trajectória-chave na história do pensamento e é a que vai desde a Revolução Francesa (1789) até ao enciclopedismo, donde surgiu a crença no progresso indefinido.

Todos os ismos artísticos estiveram unidos a processos políticos decisivos: desde o fascismo ao comunismo revolucionário; desde o surrealismo preconizado por André Breton e inspirado de algum modo por Freud, ao marxismo como teoria de luta de classes; desde o existencialismo com toda a sua força, à pintura abstracta que vai desde Vasilii Kandinsky e Paul Klee até Jasper Johns, Willem de Kooning, passando por Miro, Antoni Tàpies e toda a pintura não realista. Depois, o construtivismo, o expressionismo abstracto e a arte conceptual. Transitários do descrédito do marxismo corno explicação global do mundo, à substituição do futurismo da pintura. A morte de Karl Marx como símbolo ideológico traçou os limites entre duas etapas, o começo duma nova era, cuja queda tem um enorme significado histórico que começamos agora a presenciar.

É daqui que se produz o homem light. Dessa zona de indefinição, desse caminho sem meta. O frenesim da diversão e afirmação de que tudo vale o mesmo mostra-nos um homem para o qual é mais importante a rapidez em alcançar o desejado que a meta em si. Esta apoteose do superficial foi tendo uma série de dramáticas consequências: a dependência do sexo, da droga, do jogo, dos sedativos e do zapping, todos como ansiolíticos. Embora sendo manifestações diferentes, têm um fundo comum.

No que respeita ao sexo, (mais…)

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